Carole King completa 75 anos

Carole King poderia ter entrado para a história simplesmente como uma das compositoras mais bem-sucedidas de todos os tempos. Músicas como "You've Got a Friend", cantada por James Taylor, "(You Make Me Feel) Like a Natural Woman" (famosa na voz de Aretha Franklin) e "Crying in the Rain" (um dos maiores sucessos do A-Ha) são apenas uma pequena mostra do seu talento como compositora.

Mas quis o destino que, em 1971, após superar um medo crônico dos palcos, Carole lançasse Tapestry, um álbum fundamental na história da música. E isso por vários motivos: poucas vezes um álbum ganhou tantos elogios da crítica e, ao mesmo tempo, vendeu milhões - o disco manteve-se nas paradas por incríveis seis anos.

Tapestry também foi importante para que o formato "cantora-compositora" passasse a ser respeitado pela indústria fonográfica. Com seu disco, Carole conseguiu realizar uma revolução no panorama musical da época, fazendo que outras cantoras brilhantes como Carly Simon e Joni Mitchell alcançassem sucesso - e respeito, claro.

Trinta anos depois do seu lançamento, ouvir Tapestry ainda é uma delícia. Cheio de frescor, mostra uma cantora despreocupada e despretensiosa, querendo apenas cantar suas músicas - finalmente cantar as próprias músicas, depois de ouvir tanta gente cantando por ela. E engana-se quem espera que ela seja uma moça de voz adocicada e meiga. Sua voz encontra-se não domesticada, soando às vezes áspera, mas nunca desapaixonada.

"I Feel The Earth Move", a faixa de abertura, é puro deleite e diversão, com seu ritmo alegre e contagiante. O piano da cantora é eficiente e econômico, nunca gratuito. Aliás, nada é gratuito no álbum, o que com certeza contribuiu muito para a sua longevidade.

Clássicos não faltam: "So Far Away", onde a cantora solta uns gritos ásperos que acentuam a solidão da letra ("Doesn't anybody stay in one place anymore? It would be so fine to see your face at my door..."); "It's Too Late", seguramente um das músicas mais conhecidas dos últimos trinta anos, continua brilhante com seu clima setentista e letra incisiva: "Um de nós está mudando, ou talvez nós tenhamos parado de tentar".

Músicas mais conhecidas com outros artistas também aumentam o repertório de pérolas. "You've Got a Friend" soa muito melhor com Carole do que com o xarope James Taylor - a cantora dilui o clima hippie da gravação de Taylor e a transforma numa balada tocante. E em "(You Make Me Feel) Like a Natural Woman", a cantora mostra que não fica devendo nada à Aretha Franklin, em matéria de criar um clima emocionante. Pelo contrário: a voz rebelde de Carole intensifica o clima de paixão e gratidão da letra. Quando ela diz, "Oh, baby, what you done to me?", ela soa absolutamente frágil de tanta emoção. É um dos melhores momentos do disco.

E isso sem falar na belíssima "Way Over Yonder", na jazzística "Smackwater Jack", em "Home Again"... são doze pérolas pop, formando um álbum que, pela sua despretensão, não grita "clássico" a cada segundo, mas que alcançou tal posto pelo incontestável talento de Carole King, compositora. Que depois de Tapestry se tornou "Carole King, cantora e compositora".

Curiosidade: uma versão romanceada da vida de Carole, desde o seu início como compositora até o lançamento de Tapestry, pode ser conferida no ótimo filme A Voz do Meu Coração (Grace of My Heart, 1996), com Ileana Douglas (de Cabo do Medo) vivendo a cantora - com um nome diferente, já que o filme é ficcional.


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