Opinião


Ségio Roxo da Fonseca
Monteiro Lobato

Monteiro Lobato foi o responsável pelas nossas primeiras leituras. Conheci uma argentina que se dizia muito feliz por ter alfabetizado seu neto valendo-se dos livros do brasileiro. Minha avó, ao contrário, irritava-se com o teor de suas obras pois, segundo ela, estampavam pregação comunista. Emília? Narizinho? Pedrinho? Tia Anastácia? Seriam comunistas?.
Promotor de Justiça, fazendeiro, editor, jornalista, político, Monteiro Lobato foi homem de mil faces. Sustentava que havia petróleo no Brasil, o que era negado especialmente pelo nosso governo. Por isso foi processado, condenado, tendo cumprido seis meses de prisão.
Notabilizou-se também com a cristalização de figuras provindas do nosso folclore. Uma delas foi o Saci Pererê que avança pelos nossos dias caminhando para a imortalidade. Outra foi o Jeca Tatu, personagem de um almanaque distribuído anualmente pelas farmácias para a veiculação do famoso Biotônico Fontoura. E talvez das pílulas de vida do dr. Ross.
O nome de Ribeirão Preto surge em seu livro Cidades Mortas. Reproduzo o texto a seguir.
“Outras vezes o viajante lobriga ao longe, rente ao caminho, uma ave branca pousada no topo dum espeque. Aproxima-se de vagar ao chouto rítmico do cavalo; a ave esquisita não dá sinais de vida; permanece imóvel. Chega-se ainda mais, franze a testa, apura a vista. Não é ave, é um objeto de louça. O progresso cigano, quando um dia levantou acampamento dali, rumo Oeste, esqueceu de levar consigo aquele isolador de fios telegráficos. E lá ficara ele, atestando mudamente uma grandeza morta, até que decorram os muitos decênios necessários para que a ruina consuma o rijo poste de candeia ao qual amarraram um dia – no tempo feliz em que Ribeirão Preto era ali”.
O texto foi datado em 1906, portanto, algum tempo antes da explosão da cultura cafeeira que, segundo os economistas, foi a alavanca para elevar a industrialização do Brasil e especialmente de São Paulo.
Para qual panorama de Ribeirão Preto olhava Monteiro Lobato em 1906 para documentar um registro tão pessimista? Qual seria a sua fonte? Em 1906, não sei.
Lembro-me que mantinha amizade com o dr. Albino Camargo, advogado e político, residente em Ribeirão Preto, numa das últimas casas edificadas na época do café. A casa, infelizmente em ruinas, fica na Rua Visconde do Inhaúma, uns trinta metros acima da Rua Mariana Junqueira.
O certo é que a cidade, como todas elas, tem seu progresso e sua decadência, quase sempre momentâneos, em virtude da complexidade da vida econômica.
Ribeirao Preto, possivelmente decadente em 1906, despencou em 1930 com a quebra do café, para ressurgir da mansão dos mortos, para tornar-se o extraordinário palco de progresso dos nossos dias. Tão grande tornou-se Ribeirão Preto que o seu mais importante evento cultural, muito justamente, homenageou a memória e a obra do grande brasileiro que foi Monteiro Lobato.



Sérgio Roxo da Fonseca - Professor das Faculdades de Direito UESP/Franca e COC/Ribeirão - roxofonseca@gmail.com


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