Opinião


Paulo Arruda
O Outro


Não há sujeito sem o Outro, afirma a vertente lacaniana da psicanálise. Como não pretendo iniciar outra escaramuça entre as diferentes escolas, vou me ater apenas à afirmação em questão. E conjeturar em termos mais pessoais.
Particularmente, penso que o Outro é quem me define e cujas relações que com ele mantenho me situam no mundo. Mas quem é este Outro, assim, com “O” maiúsculo?  Etimologicamente, a palavra tem origem no latim alteru (outro entre dois), ou seja, alguém que não seja o interlocutor; coisa de Napoleão de hospício.
O Outro é obrigatoriamente diferente de nós, ele “é o que não sou” (Sartre, que também sustenta que “o inferno são os outros” em ‘Entre Quatro Paredes’, no qual os personagens vão parar num Inferno diferente do clássico, com demônios e tridentes, e no qual o castigo é justamente a convivência eterna com os ditos semelhantes...), como Heráclito matou na mosca: acreditava que o Outro indicava a existência de outros Eus que não eram dependentes de quem vivenciava a experiência.
Há um pequeno outro, nosso semelhante, que não deve ser confundido com o grande Outro, que é com quem as coisas acontecem: somos frutos de nossas interações com pessoas, mães, pais, irmãs, irmãos, parentada, amigos, professores, e que tiveram sua participação no processo de nos tornarmos pessoas. Alguns de nós.
O Outro também pode ser muarmente visto como “o Inimigo”, sobretudo em determinadas denominações evangélicas. Nada que uma boa ida ao Aurélio não resolva. A ideia de se culpar o diferente por problemas cujas causas nada têm a ver é antiga, basta ver a Alemanha nazista e os judeus, que eram então um “Outro” devidamente satanizado e incômodo.
O Outro, seja companheira, filha, amigo ou o que for, só pode enriquecer nossa existência: é através de nossa interação com ele que crescemos e agregamos valor às nossas vidas.
Acontece, com alguns de nós, de sermos escolhidos por força das circunstâncias a personificar algum tipo de demanda coletiva e que necessita de um rosto. Também implica em uma responsabilidade além da meramente pessoal: afinal, ao agirmos em nome de pessoas ou de algum grupo delas, também o fazemos em nome do Outro, sem o qual, aliás, nada aconteceria.
Ainda segundo Lacan, “o inconsciente é estruturado como linguagem". Sem dúvida, o idioma que utilizamos ao dialogar com este estranho “Outro”, que ninguém é além de nós mesmos, vistos por outros prismas e paralaxes.
Que aceitemos então este Outro tão necessário em nossa vida, não na hora de fazer churrascada, mas nas ocasiões em tomamos decisões que podem – e vão!- nos afetar.
A propósito, a espécie humana é algo muito louco. Vai ver, o Outro está em você...

Paulo de Queiroz Arruda Filho é analisando há mais tempo do que gostaria de se lembrar, e também consultor em TI.

 


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