Opinião

Jeremias Carvalho
A LIQUIDEZ DA VIDA

Já em nove de janeiro, o ano de 2017 foi marcado por uma importante morte no cenário intelectual: Zygmunt Bauman veio a falecer com 91 anos de idade. O sociólogo polonês, há muito tempo erradico na Inglaterra, representava um dos últimos grandes pensadores das ciências humanas do pós-guerra. Como poucos, ele pôde viver e escrever sobre um dos períodos de mais intensa transformação na história da humanidade, e, sem dúvida, o de maior transformação nas relações humanas.

Em um formato básico, a História é feita de continuidades e rupturas. Pode-se entendê-la a partir do que muda e do que parece permanecer igual. As grandes rupturas da História geraram grandes rompimentos com o passado, afinal, não teria como o mundo ser o mesmo depois da descoberta do fogo ou da Revolução Francesa. Essas marcas conduziram a processos de intensas mudanças, especificamente nas relações entre as classes e entre as sociedades e a natureza. Mas nunca, como neste tempo vivido, as relações do indivíduo com si mesmo e com o outro se alteraram tanto.


A “modernidade líquida”, como denominou Bauman, é a marca deste tempo. As relações passam a se estabelecer numa maneira continuamente provisória, não-pessoal e interesseira. Sendo líquido, escorrem pelos dedos aquilo que parecia mais duradouro ao longo do tempo. Os laços familiares e comunitários não resistem ao mundo da exposição e do egoísmo, cada vez mais fundamentado pelas estruturas de mídias e redes sociais. A rede, aliás, é o grande conceito moderno para as relações. Reside nela aquilo que o ser é, o que já foi e o que pode ser, sendo que essa sua “essência” se abre àqueles considerados amigos, devidamente selecionados por um critério individualista e egocêntrico. Na rede, as relações podem ser rapidamente estabelecidas ou encerradas, conforme critérios muito próprios.


A modernidade líquida não é apenas uma percepção do tempo histórico que a humanidade está, mas envolve a liquidez de tudo que diz respeito à vida humana. É o tempo do amor líquido, do medo líquido, do desejo e da felicidade, líquidos. Uma pessoa só está satisfeita com sua vida a partir do momento em que terceiros a considerarem feliz, tornando-se fundamental, desta maneira, a contínua exposição de suas ações na rede. Uma rápida ida a qualquer espaço público, seja uma praça, as ruas do centro ou um shopping center é suficiente para detectar tal realidade. O afeto criado pelos celulares é sintomático de uma sociedade que precisa estar continuamente plugada na rede, exibindo tudo o que puder, e observando o máximo que conseguir. O perfil individual exposto nas mídias sociais pode ser muito distante da realidade, mas o que vale é o saldo de reações e curtidas.


Nunca foi tão fácil agredir, ofender e perseguir o outro, com a vantagem de fazer à distância, no conforto de casa mesmo, sem a responsabilização por conseqüências possíveis e com a praticidade de mudar de assunto assim que enjoar. A própria vida é líquida. As notícias, debates, textos, desabafos e piadas correm continuamente pelas barras de rolagem movimentadas por dedos ágeis que apenas são detidos pelo o que interessar, quando interessar.
Bauman fará muita falta. Não porque já não tenha contribuído o suficiente para a sociologia e filosofia, mas porque parecia ser um dos últimos pensadores concretos num mundo líquido.

*Professor de História – Graduado pela USP.
Jeremias Ricardo Carvalho
PCNP História e Filosofia - núcleo pedagógico
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