Opinião

Jeremias Carvalho
HISTÓRIA: MESTRA DA VIDA?

Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.), orador e político romano do período republicano forjou a definição da História como mestra da vida. A História aqui não como ciência ainda, mas como percepção das experiências passadas, muito ligada à memória, seja coletiva, seja individual. Apesar de toda a transformação da História, que passou, entre outras coisas, a ser empírica, técnica, profissional e escolar, essa perspectiva de ensinar para a vida não se alterou. A principal justificativa que qualquer professor da disciplina dá aos seus alunos, em geral insatisfeitos em ter que estudar algo que já aconteceu e que aparentemente não faz sentido nenhum no mundo de hoje, é a de que a História ensina para agir no futuro; fornece possibilidades e evita os mesmos erros; pode garantir um mundo melhor, distante das tantas violências, disputas e preconceitos assistidos no passado.


Surgiria a fórmula ideal. Nos instruímos de História e caminhamos para um mundo melhor. Entretanto, parece ser um hábito do Brasil negar seus mestres. Haja vista toda a desvalorização já existente com os profissionais da educação, colocados num patamar de status social inferior, a própria ideia de aprender algo parece desinteressante. Seguir um mestre, ou uma mestra no caso da História, não se coloca atrativo neste país.


Sagrou-se o impeachment de Dilma como um divisor de águas num país ainda estigmatizado pelo passado colonial e pela dependência econômica, colocando-o como a materialização – finalmente – de uma consciência política efetiva, que colocaria fim aos escândalos de corrupção, conchavos políticos e o vergonhoso subdesenvolvimento. Mas não foi nada disso. A mestra, se tivesse oportunidades, nos mostraria que, historicamente, a democracia no Brasil sempre se mostrou frágil, destinada a se despedaçar por qualquer mísero desejo não atendido. Dessa maneira, assistimos a uma coalização política para a extinção de direitos em pleno século XXI, enquanto as massas que antes se viram politizadas pela queda de uma presidenta, agora se mostram atônitas, incapazes de entender a equação que se propõe, ou, para se referir aos ensinamentos de nossa mestra, “bestializados” diante das novas parcerias estabelecidas entre os três poderes.
Nossa Constituição, a de 1988 denominada de cidadã, surge agora em retalhos, decomposta em emendas contraditórias e, essencialmente, oligárquicas. Qualquer semelhança com todas as nossas Constituições anteriores não é mera coincidência. A História sempre esteve aqui, para ensinar, para ser mestra, mas, definitivamente, não foi ouvida, nem lida ou sequer percebida. As panelas se calam, e as elites, sem assumir sua ineficácia na História do Brasil, voltam-se ao velho discurso da redenção privatizadora, de que “política não tem jeito mesmo” ou “não tem um que salva”. Perpetuam, assim, as perdas sistemática das classes inferiores, que se mantem como dependentes na lógica semi-escravista que se arrasta por aqui.


Em todos os tempos, como a História nos mostra, justificou-se ações autoritárias, unilaterais e restritivas em nome da ordem. Conjugou-se o próprio conceito de ordem com o da força, do que é extremo, mas necessário. Parece que mais uma vez serão aceitas a deterioração dos serviços públicos, a modificação do acesso previdenciário e a reformulação de alianças políticas improváveis na busca do sonho do desenvolvimento brasileiro. Pagar-se-á o pato... mas diluído em suaves prestações de tempo de trabalho, arrocho salarial e falta de acesso à serviços públicos de qualidade. Como sempre aconteceu.
A História retratará este momento que viemos? Fatalmente, pois é seu papel. Mas sob qual tinta? Para qual leitor? Atenderemos sua proposta de ensino ou recairemos, mais uma vez, na repetição do passado, sem sequer notá-lo como passado?

*Professor de História – Graduado pela USP.
Jeremias Ricardo Carvalho
PCNP História e Filosofia - núcleo pedagógico
jeretri@gmail.com

 


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