Opinião


André Barioni
A inclusão que eu mereço ainda vem como segregação!

Eu sou dono de 72 medalhas, sendo 14 de ouro, 29 de prata e 29 de bronze. E não seria justo me comparar aos meus amigos compatriotas “normais”, que ficaram com 19 medalhas ao todo em sua competição, sendo sete de ouro, seis de prata e seis de bronze. Apesar do oitavo lugar na competição contra o décimo terceiro dos meus compatriotas, isso aqui não é uma disputa justa, mas eu preciso me apresentar desta forma porque pode ser que você não tenha conhecimento do meu sucesso.

Digo isso porque não participo junto da mesma olimpíada com os meus irmãos de luta, podendo ser uma única competição mais longa por exemplo, mas também não posso deixar de mencionar que a cerimônia de abertura da Paralimpíada nem mesmo foi transmitida por canal aberto, o que me deixou ainda mais revoltado. Não à toa, direciono desde o início deste texto, a começar pelo título, a vida que eu levo em sociedade, a da segregação, que posso demostrar pelos meios de comunicação.

A Olimpíada passou em vários canais abertos e não satisfeita, para que você pudesse escolher o seu esporte favorito, a Globo por meio da SporTV abriu 16 canais HD para passar todos os jogos da competição, 24h. Acha que acabou? A NET abriu os canais Band Sports, Fox Sports e ESPN durante toda a competição, gratuitamente. E isso tem um objetivo para os meios de comunicação, mas não é o meu aqui. O meu é o de mostrar a segregação.

Diferentemente das Olimpíadas, a Paralimpíada foi reduzida para alguns minutos em jornais nacionais e privilegiada por um único canal, o SporTV 2. É isso mesmo, um único canal em TV paga. Não é uma inclusão? Até mesmo na internet era difícil de acompanhar. Às vezes não tinham nem notícias de medalhas de ouro na página inicial dos sites. Para se ter uma ideia melhor do que estou relatando aqui, vou usar como exemplo o “futebol de 5”. E neste momento já deixo como sugestão o documentário “Paratodos”, que foi distribuído em escolas públicas estaduais e pode ser visto no Netflix. Neste documentário, uma parte é voltada para o futebol de 5, onde o Brasil é apresentado como o único campeão da modalidade desde quando entrou nas Paralimpíadas. Ou seja, era tricampeão até 2016.

Na Rio 2016, não diferente, o time chegou à final. Ao procurar, posso garantir, não passou em nenhum canal, nem mesmo no SporTV 2. Na Record então, o “canal das olimpíadas e paralimpíadas” (risos), estava passando no momento o campeonato brasileiro série B. Incrível. E óbvio, tornou-se tetracampeão paralímpico.

Os meios de comunicação só servem para explorar as pessoas, falar de superação. É assim que conseguem audiência. Não vou nem comentar o que foi feito com a morte do ator da Globo, somente o azar de ter o Faustão e o Fantástico continuamente no mesmo horário que a cerimônia de encerramento da Paralimpíada. Por isso que, para não ocorrer esses percalços, bom seria se fosse um único evento mesmo. Haveria, talvez, uma tentativa de inclusão. Mas não se preocupe, a primeira desculpa seria o fato de não haver espaço suficiente para tantas pessoas.

Então, a segregação contínua. E contínua forte na sociedade. A escola, como berço da mudança da sociedade por meio dos professores tenta incluir essas pessoas, mas reconhecendo as dificuldades diárias. A acessibilidade, uma luta constante, quase inexistente. As próteses, continuam caras e as possibilidades, pouquíssimas. E assim vivemos.

Se igualdade não é justiça, sabemos, imagine viver, então, em um mundo desigual e estando na parte invisível do jogo? Bem-vindos ao mundo dos segregados

André Barioni mestre em geografia UFU/MG - Professos das redes públicas e privadas de ensino Twitter - @mobilidaderp


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