Opinião


André Barioni
FALAR EM EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO É FÁCIL, PRINCIPALMENTE QUANDO NÃO SE FAZ NADA PELA EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO: sobra para a “escola”, como sempre.

Com esse título enorme, chamo a atenção para as instituições que cuidam do trânsito e da mobilidade no nosso país. De modo geral, chamo a atenção de todos, desde aqueles que projetam as vias, os que criam as leis e, principalmente, daqueles que fiscalizam a nossa vida.
A fiscalização.


Até poderia escrever que a fiscalização existe para educar o povo, porém, estou convencido de que essa é uma falácia imposta ao senso comum. Muitos ainda acreditam, eu sei! Mas eu estou convencido e vou citar exemplos aqui, mesmo sabendo que por serem vários, ainda terei que deixar uma parcela de fora. O leitor é bom, vai pensar em outros também.
Gostaria de lembrar, antes de tudo, que o trânsito é uma ação de cidadania. É preciso respeitar as regras (direitos e deveres) que são comuns a todos. No trânsito, ninguém pode ser mais importante que ninguém. Isso precisa ser claro, sobretudo para os motoristas. Significa que a fiscalização nem deveria existir, confiando no cidadão que exerceria a sua cidadania e respeitaria as leis sem qualquer tipo de problema. Contudo, sabe-se que não é assim.
Sem fiscalização, nós abusamos. A maioria. E se discute muito sobre essa atitude que parece ser uma característica do povo, do brasileiro. Sem fiscalização, acelera-se, bebe-se e não para não. Mas no senso comum e no nosso país o culpado é sempre o povo mesmo e nunca as instituições. E, por isso, escrevo esse texto.


Lei é lei. Se gera interpretação, como muitos advogados gostam de falar, não sei por que a chamam de lei. Se a justiça procura assegurar a igualdade, quem fiscaliza aqueles que nos fiscalizam diariamente? Sei da importância do Ministério Público, por exemplo, mas este não tem pernas para investigar tudo, mesmo denunciando.
E o que eu quero dizer até aqui é que, ao deixar o cidadão com dúvida, infelizmente desperta-nos a esperteza. E o nosso país já tem essa fama, o de ser o país dos espertos, não? A dúvida nos leva a corromper, pois analisando o cotidiano é evidente que uns tem vantagens sobre outros. A própria lei de trânsito e a punição são injustas, e aqui já faço uma denúncia ao Ministério Público, que eu não sei por que ainda não fez nada sobre os valores das multas de trânsito no Brasil.


Considerando a desigualdade socioeconômica no nosso país e o salário mínimo que é o que a maioria recebe (de R$ 937,00), como posso aceitar multas com valores acima deste mínimo? Como eu disse, a lei é injusta, e aqui já vai o primeiro exemplo de desigualdade. Ah, mas a lei tem que ser dura! Eu sei, concordo, mas na mesma proporção, não acha? Ah, mas temos a pontuação para equilibrar essa desigualdade, vão dizer, aquela que nem pode ser transferida para outro, né!?
Poderíamos falar do estado das rodovias também, para citar outro exemplo de desigualdade. Aqueles que não podem pagar vão pelas rodovias não pedagiadas que, aliás, são sempre piores que aquelas pedagiadas. É aquela retórica da privatização boa, quando se tem dinheiro e mora em local que oferece um mínimo de qualidade por ter uma representatividade econômica no cenário nacional. Quando o município não está neste cenário, aí às vezes a rodovia nem chega. E é o caso de várias rodovias em Minas Gerais.


Eu fiz uma viagem nestas férias e percorri mais de 800km por São Paulo e Minas Gerais. Neste percurso eu topei apenas uma única vez com uma viatura policial (rodoviária). E isso foi em Minas Gerais. Para a minha surpresa (brincadeira), a viatura estava em um ponto cego para o motorista que vinha em sua direção. A qualidade da rodovia era péssima e qualidade do veículo na minha frente pior, andando em uma velocidade muita baixa. Fiz a ultrapassagem, óbvio, e apesar da sinalização, que aliás era péssima e quase invisível, não percebi que havia uma linha contínua.
À frente, o policial me parou. Está certo, eu errei, tem que multar! A questão é que o policial não parou o carro que não poderia estar na rodovia pelas suas condições, não parou o carro pelo fato de trafegar abaixo da velocidade permitida para a via e estava parado em um ponto cego que é ato de fiscalização sem qualquer tipo de presteza, a não ser a aplicação da multa.


Parado e aguardando verifiquei que passaram três veículos com o farol desligado, na semana, a propósito, de intensificação desta lei, já que entrava em vigor. Mas, não se preocupem, nenhum motorista foi parado. Aí eu volto lá na questão da dúvida, que não poderia ter, principalmente por parte de quem fiscaliza. Por que os policiais não pararam todos? E a dúvida piora, porque continua. Por que estavam em local propício para este tipo de multa que eu levei? E não para. Ao comparar os valores das multas de todos, por que só eu fui parado, e aqui, ao pesquisar, verifico que a minha é a mais cara, e de um valor injusto, acima de um salário mínimo?


Quem eu procuro neste caso, por que para um policial, qualquer brasileiro descente sabe que não se deve reclamar, o que já é outro ponto que deveria ser discutido entre Ministério Público e os órgãos Militares.
Para finalizar a descrição breve, basta saber que se o ponto realmente fosse perigoso, o policial estaria antes do local alertando o perigo, o que não era o caso. É como esses radares em linha reta na Rodovia Anhanguera. Eles mais causam acidentes do que evitam, basta verificar o local dos acidentes. Mas a quem procuramos para reclamar?


Bom, multa dada, multa paga. Eu ainda posso, diferente de muitos que, provavelmente, a partir deste fato, passariam a se locomover na ilegalidade. Que é exatamente o que a maioria faz quando perde a carteira de habilitação por pontos ou bebida. E que, aliás, sabemos, se for preso e rico, paga a fiança e sai, mas, se for pobre, ficará preso vai saber por quanto tempo. Veja como é justa e igualitária a nossa legislação. Nem nos contos de fadas um autor elaboraria tal ideia.
E como trabalho com Educação para o Trânsito, preciso educar as crianças mencionando os conceitos de cidadania, igualdade, justiça, etc., mentindo descaradamente para crianças que são tão inocentes e ainda deslumbram com o senso comum.
Por trabalhar com essa temática, na semana seguinte do ocorrido ainda fui ver uma palestra de um policial rodoviário que falava sobre as ações de seu patrulhamento, com foco no trabalho de Educação. Finalizou a palestra citando Piaget e Paulo Freire. Eu quase chorei, óbvio, de raiva.
É preciso dizer que existe toda uma estrutura que cuida do trânsito no nosso país que mais deseduca do que educa, mesmo aqueles cidadãos mais conscientes da temática.
Não tem como respeitar. É preciso mudar tudo, começando por quem fiscaliza, já que são esses que reforçam as injustiças no nosso país.


André Barioni mestre em geografia UFU/MG - Professos das redes públicas e privadas de ensino Twitter - @mobilidaderp


Enfoque Ribeirão
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