Opinião


André Barioni
As cotas e a qualidade de ensino

Existem coisas que são indiscutíveis. Cotas, sejam ela quais forem, independentemente da categoria e da pessoa, principalmente voltadas para o ensino, são uma dessas coisas. Parecem ser benefício em um primeiro momento, mas o fato de ignorar que o ensino é um processo e que necessita de certo aprendizado, de qualidade, não é algo tão simples assim. É uma ação pensada para o presente, política atual, sem qualquer compromisso com o futuro.
Começaram pelos negros. Há uma porcentagem de vagas reservadas para os negros no nível superior, basicamente nas Universidades Federais e/ou públicas. Depois, falaram nos pobres, sejam eles de qual cor forem. E agora, para os alunos da escola pública. Isso tudo em um país que diz, pela sua Constituição, que todos são iguais, mas que garante por meio do mercado, que os alunos das escolas privadas dominem as vagas das escolas públicas de nível superior, através dos vestibulares. Ora, esse fato nada mais representa que a qualidade do ensino. As escolas privadas têm o ensino melhor atualmente. Essa é a briga: como permitir ao mercado selecionar a formação das pessoas? Essa é a política educacional que queremos? É óbvio que quem pode e quer, financeiramente, consegue uma melhor formação atualmente. Mas essa política de cotas pode inverter o jogo. No futuro, as escolas privadas de nível superior podem ser melhores e, talvez, mais caras que as de hoje. Ou seja, novamente uma vitória do mercado, pois os melhores profissionais sairão dessas escolas e quem estudará, serão os alunos que podem e querem, financeiramente.
Volto a dizer, não é uma questão de ser racista, de estar em determinada classe, ou ainda, estar em um determinado tipo de ensino, pois as cotas, para o benefício da formação de pessoas com formação sem qualidade, é algo indiscutível. O texto, aqui, foi elaborado com base na qualidade da educação no Brasil, com ênfase no ensino paulista, que agora vai garantir aos alunos da escola pública certa quantidade de vagas no nível superior. O aluno vai passar por curso de dois anos e, ao ingressar, pode ainda receber bolsas de estudo. Mas quem garante a qualidade de ensino das universidade?
Pensando pelo Estado, realmente é uma atitude interessante, já que não precisa melhorar o ensino básico. Basta garantir as cotas! Aluno que estudou em escola pública, se não pode pagar pela privada, tem o direito de continuar estudando no nível superior público, gratuito. Muitos concordam com isso, desde que a escola pública básica consiga atingir uma formação com qualidade. Ou seja, a questão, aqui, é a forma como os alunos da escola pública do nível básico estão se formando hoje. Se a USP, por exemplo, já perdeu em qualidade com os alunos, na sua maioria, formados nas escolas privadas, o que será do ensino superior futuramente? O único nível de ensino público que ainda garante certa qualidade de ensino, mesmo não sendo todas as instituições.
A qualidade de ensino é inegociável, e, se assim o é, cotas não se discute, pois, não é uma política que visa a qualidade de ensino. Benefício na educação é igual progressão e, facilitar, aqui, e sempre, na educação, não é ajudar. Se caracteriza mais como enganar. E enganar as pessoas é algo horrível - mesmo que elas desejem ser enganadas. Preferem ser porque são alienadas e não percebem que o certificado de conclusão de um curso hoje é algo discutível e não garante um emprego bom. É discutível justamente porque o ensino hoje não garante a formação, e essa depende muito do cidadão, principalmente no nível de ensino básico público.
A proposta desse texto é dar uma resposta para essas políticas e ações educacionais sem compromisso com o futuro da educação brasileira, que pode prejudicar o único nível de ensino público que ainda tem certa qualidade no nosso país. A proposta é mostrar que ao garantir um ensino básico de qualidade, garante-se, também, a entrada da pessoa no vestibular. Para isso, é necessário criar uma política de ensino que busque pela qualidade do nível básico. Ou seja, no final desse processo, garanta ao aluno escolher o que quer fazer e onde fazer, e aí, aumentaria o número de escolas de nível superior, como também, a quantidade de pessoas formadas no Brasil. E não permitiria mais um ensino como é hoje, onde o aluno é escolhido pelo mercado - faz o que dá conta, e onde sabe que vai passar, mesmo que demore - explosão de EAD!

André Barioni mestre em geografia UFU/MG - Professos das redes públicas e privadas de ensino Twitter - @mobilidaderp


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